Entrevistas e Matérias Rui Motta

Revista Modern Drummer, Abril 2015 - por Vlad Rocha

Rui MottaComente sobre a nova unidade da Oficina de Bateria Rui Motta, na Barra da Tijuca (Rio de Janeiro). Como é chegar à terceira unidade de sua escola?

Acho legal falar rapidamente de todas pra ter uma idéia geral. A da Lagoa surgiu em 2006 quando eu tive literalmente que construir o primeiro estúdio, onde funcionava uma clínica com as paredes de vidro, quer dizer, não dava né ? Resultado: muito tijolo, cimento, madeira, paredes, teto (isso mesmo, tive que fazer o teto), madeira, lã de rocha e encheção de saco com os operários.

Na Tijuca eu baixei hospital no meio das obras e minha esposa Monique teve que fazer todo o resto sozinha. O resultado foi ótimo porque ela solucionou problemas de um jeito que eu jamais pensaria. Muito talentosa a Baixinha.

Bom, a escola da Barra surgiu meses depois da escola da Tijuca e foi um processo vitorioso do Jonas, meu filho, com o Cláudio, sócio dele, que fizeram praticamente tudo, e eu fiquei só dando alguns pitacos eventuais. O resultado ficou excelente. Tanto na Lagoa, quanto na Tijuca e na Barra, tivemos a sorte de achar bons locais porque isso é crucial. Na Lagoa, por exemplo, a maioria dos alunos ainda chega por intermédio do letreiro que fica bem visível, numa rua movimentada.

O fato de ter chegado à terceira unidade significa que o trabalho da primeira foi bem feito, e abriu espaço para as outras. Isso sem dúvida é uma conquista, e deixa um gostinho de gratificação, mas o trabalho e a responsabilidade aumentam muito, e você tem que se desdobrar pra corresponder. Mas é um desafio que vale a pena.

Quais as grandes dificuldades que existem atualmente para manter um espaço de ensino musical?

Você fez a pergunta certa, porque é mais difícil manter do que abrir o espaço. É claro que a abertura de um espaço novo tem seus próprios desafios, e não são poucos. Em nosso país a iniciativa pessoal bate de frente com problemas incríveis, e você tem que ter muita paciência, disposição e acreditar muito no seu projeto porque tudo parece concorrer pra que você desista. Isso é um fato. O outro passo - transformar esse espaço numa coisa vitoriosa - é ainda mais desafiador, porque alunos não dão em árvores, e você também precisa formar um bom time de professores e funcionários, além de montar uma estrutura que resista às intempéries dos primeiros meses. Então você precisa estar muito seguro do serviço que está oferecendo pra poder passar por essas etapas. Não pode ser uma coisa tipo vamos ver como é que fica, tudo tem que ser planejado e razoavelmente previsto.

Você possui diversos métodos lançados, está na terceira unidade de sua escola e material lançado em vídeo. Quando ensinar tornou-se parte de sua carreira, e o quão importante é isso para você?

Eu sempre gostei muito de dar aula, mesmo lá atrás, ainda na época dos Mutantes, eu dava um jeito de ter um espaço na minha casa pra montar uma bateria e dar aula. Isso me forçava a pesquisar pra aumentar meus conhecimentos, porque, afinal de contas, tocar bateria era o meu ofício de fé. A curiosidade e a vontade de saber sempre estiveram presentes em mim, como está até hoje.

Em 92, quando saiu meu primeiro método, passei a investir mais tempo nas aulas porque comecei a viajar pra fazer workshops e as pessoas me ligavam de várias cidades fora do Rio e de outros estados. Ao mesmo tempo, eu sentia um grande prazer em estudar bateria, felizmente isso sempre foi assim.

Em geral os músicos deixam de dar aula porque precisam viajar pra fazer os shows. Eu fiz o caminho inverso: parei de investir na minha carreira free lancer pra ter mais tempo pra dar aula e estudar. Logicamente isso teve um alto preço, mas eu estava muito firme diante dos meus propósitos. Mas eu não decidi isso sozinho, essa força veio do Senhor que me guiou o tempo todo, como em todas as etapas cruciais da minha vida.

Qual o conceito base que procura desenvolver com seus alunos?

Nós temos um programa infantil para crianças até 7 anos, além do programa do curso regular de bateria que é profissionalizante e tem como objetivo preparar o aluno para que ele possa exercer, se quiser, o ofício de baterista e atuar em qualquer tipo de trabalho, seja com uma banda ou fazendo shows e gravações com artistas de qualquer nível e estilo. Mas na verdade é o próprio aluno que se forma, se ele não fizer uso adequado das apostilas que são distribuídas no curso, ele não vai chegar lá, e é por isso que nós deixamos o aluno à vontade pra que ele mesmo decida até onde quer chegar. Quando o aluno tá a fim de se desenvolver e tem talento, o professor automaticamente assume uma postura mais exigente porque o programa tem mecanismos para se expandir.

Como o fato de você ter sido autodidata influenciou na montagem de sua metodologia?

Eu estudei e pesquisei bateria a minha vida toda. O programa atual das três escolas começou lá atrás com as minhas próprias anotações, coisas que eu descobria e desenvolvia, porque até dormindo eu pensava em bateria e tocava mentalmente acompanhando com os dentes. Eu sempre gostei tanto de estudar quanto de tocar, não havia diferença, por isso, tudo foi ficando cada vez mais natural e espontâneo.No começo eu ainda usava exercícios selecionados de algum livro, mas logo comecei a compor meus próprios exercícios porque isso tudo resultava em dezenas de manuscritos. Isso era uma febre porque eu queria porque queria tocar do mesmo jeito que tocava na cabeça, não admitia perder pro meu pensamento.

Comente um pouco sobre o início de sua carreira, na época em que você tocava com as bandas Veludo Elétrico (ao lado de Lulu Santos) e Sociedade Anônima. Como era ter uma banda nessa época?

Foi um tempo bom. O comecinho mesmo foi lá em Niteroi, aos 15 anos mais ou menos, fazendo bailes com meus conjuntos da época (Os Corujas, Zoom 2000, Musi Show). Depois veio o Sociedade Anônima, eu ainda morava em Niteroi, onde nasci, e tocava em concertos de rock (chic né ?) no MAM, Villa Lobos e outros lugares, sempre com muito improviso, muita vontade e muita garra. Me lembro que no MAM certa vez tivemos que carregar o palco, isso mesmo, montar o palco antes de colocar o equipamento. Minha primeira gravação profissional em estúdio foi com o Sociedade Anônima, gravamos a música Solto no Ar para uma novela da tv.

Com o Veludo Elétrico nós inauguramos o primeiro espaço underground do Rio que ficava nos porões da faculdade Cândido Mendes, em Ipanema, um barato total que infelizmente durou pouco mas deixou saudades porque era um point onde se reunia todo o pessoal que curtia rock e rolava som até a madrugada, coisa linda.

Me lembro que cada vez que subia ao palco eu era tomado por uma carga de energia que percorria todo o corpo, parecia um dínamo. Tocar em público era uma experiência totalmente mágica, literalmente maravilhosa e única.

Você consegue traçar um paralelo com o mundo atual? Quais são as diferenças principais em termos de ter uma banda autoral?

A produção de um disco por exemplo, é muito mais fácil agora, nem se compara. Antes você tinha primeiro que assinar um contrato com uma gravadora pra ter o trabalho de sua banda gravado. Hoje você faz uma pré produção em casa com qualidade, e com um pouco mais de grana pode até gravar a bateria e instrumentos micronados.

Basicamente o processo ainda é o mesmo: você precisa divulgar seu trabalho pra poder tocar. Só que hoje em dia você dispõe de meios diretos de comunicação e pode fazer boa parte dessa divulgação sentado numa cadeira, de frente para um computador. Quer dizer, nesse ponto facilitou muito, né?

Quais eram suas influências na época?

Principalmente Beatles e mais tarde, Steppenwolf, Procol Harum, Jimmy Hendrix e uma lista infindável de bandas, cantores e músicos que eu curtia, mas sinceramente nunca me preocupei em tocar igual a ninguém. Se você me perguntar qual foi o baterista que eu mais ouvi eu digo que foi o Ringo, nem tanto por ele, mas por causa dos Beatles, embora eu considere o Ringo genial.

Atualmente quais são suas influências?

Influência mesmo no sentido exato da palavra acho que não tenho nenhuma, mas gosto de toda música que chegue prazerosamente aos meus ouvidos e que tenha sido feita num patamar superior de elaboração e inspiração. Caetano Veloso por exemplo, consegue manter até hoje um frescor musical muito raro para um artista consagrado, chegando mesmo a fazer música quase experimental. Isso mostra que o cara ainda está preocupado em buscar novos ares pra sua música, e isso não é todo mundo que faz.

E seu lado compositor? Quando ele começou a aflorar?

Por volta de 1975 comprei meu primeiro piano acústico e comecei a compor algumas músicas e fazer arranjos. Nos anos 80 surgiu um gravador pequeno que fazia play back (esqueci o nome dele), e isso me motivou a compor cada vez mais, com a vantagem de ouvir depois a música por inteiro, só que toda gravada no piano, ou seja, a base era o piano, assim como o baixo, as melodias e os contra solos. O resultado era uma verdadeira pianada que eu procurava diferenciar gravando em oitavas diferentes e diferenciando os volumes. É aquela velha história: quem quer faz, né mesmo? Depois era só ouvir dezenas de vezes, regravar outras dezenas e por fim escrever o arranjo definitivo. Daí surgiu a minha velha mania de escrever a música toda, até a linha do baixo.

Como você enxerga o futuro do ensino musical no Brasil?

Com bons olhos. O Brasil é um país super musical e vive a música no seu dia a dia. Acredito que daqui a pouco a música terá seu espaço no programa escolar em escala geral. Tá demorando, é verdade, mas acho que chegaremos lá. Isso tudo vai acontecer a partir de uma demanda social que já está em andamento, e é uma questão de tempo.

Conte sobre sua época com os Mutantes. Como era o dia-a-dia?

Era um tempo bem diferente em que fui muito feliz. Nós ensaiávamos, e boa parte do tempo morávamos, numa casa grande em Itaipava com um rio que passava ao lado, que era do nosso querido amigo e empresário, Samuca. Tínhamos um quarto pra cada um, inclusive pro road (sim, o road morava com a gente) muita área verde e um salão de jogos transformado em estúdio. Normalmente acordávamos depois do meio dia porque tínhamos ido dormir com o dia raiando. Daí partíamos pro café da manhã, almoço por volta das 4 ou 5 da tarde, depois partíamos para o estúdio até que a fome nos forçasse a uma parada para um lanche e recomeçar tudo de novo até o clarear do outro dia.

Mais ou menos duas vezes por mês saíamos pra fazer um show, e quando era em São Paulo e arredores, parávamos na casa dos pais do Sérgio, no bairro de Higienópolis, pra reciclar e curtir um pouco de Sampa. Note que a gente reciclava as idéias na cidade, e não na natureza, porque já morávamos lá. Muito luxo né?

Enfim, era só alegria, num espaço de tempo que passou como um raio em cinco anos inesquecíveis que marcaram toda a minha vida.

E seu material em DVD Workshop para Bateria e Teclado junto com Fernando Moura. Qual a concepção?

Nos final dos anos 70 e toda a década de 80, eu e o Fernando trabalhamos juntos em muitos shows, viagens, gravações de todo tipo, e sempre tivemos uma identificação musical e pessoal muito consistente. Fizemos várias tentativas anteriores de dividir um trabalho solo e nunca conseguimos. Derrepente, não me lembro nem porque, surgiu a idéia desse DVD que não teve nenhuma pré concepção, a não ser a vontade de fazer algo diferente do que já tínhamos feito.

Começamos a ensaiar no estúdio da oficina da Lagoa e era assim: quando era música do Fernando ele mostrava a música toda sequenciada, menos a bateria. Quando era música minha, eu ia pro estúdio dele em Botafogo e fazíamos o sequencer, daí então partíamos para os ensaios. Nos ensaios eu tocava de headphone, que escondia muitos detalhes do sequencer, por isso, nunca ouvia todas as vozes sequenciadas, e, pra você ter uma idéia, aconteceu que, em algumas músicas, eu só fui ouvir tudo que estava sequenciado quando o técnico abriu todas as vozes nos canais da mesa, isso já no dia da gravação. Felizmente os arranjos da bateria, que já estavam prontos e escritos, foram todos na mosca e eu não tive que mudar nada.

Outro detalhe curioso desse trabalho é que, pela primeira vez, eu decidi que os arranjos da bateria seriam quase totalmente escritos. O resultado disso é que mais ou menos 90% da bateria é sempre tocada da mesma forma, porque os arranjos são muito diferentes, intrincados e com muita parte ambidestra. Tive até que acrescentar, do lado esquerdo do contratempo, um surdo, um tom e uma caixa, além do tamborim e da panelinha, para as levadas com a esquerda. Foi o kit mais completo que eu montei até hoje.

E seus discos solo? Como eles foram nascendo? (Sempre houve um processo similar ou algum deles foi totalmente diferente)?

O processo foi sempre o mesmo: tudo começou com aquele gravadorzinho que fazia play back. Daí eu comecei a produzir freneticamente as músicas e os arranjos juntos, guardava tudo naqueles envelopes de papel pardo e continuava o processo. O resultado é que acabei fazendo músicas para vários discos, e até hoje não gravei tudo ainda.

Houve uma fase, nos anos 80, em que eu compunha muito e ficava com as mãos suando frio porque as idéias vinham em cascata na minha mente e eu não conseguia registrá-las na mesma velocidade. Isso causava um grande desconforto porque eu sempre acabava perdendo muita coisa.

Outra coisa engraçada que acontecia é que, não raramente, minha mão escorregava e errava o acorde que estava programado, mas acabava saindo uma solução harmônica muito melhor. Coisas do arco da velha, né?

Comente sobre a nova unidade da Oficina de Bateria Rui Motta, na Barra da Tijuca (Rio de Janeiro). Como é chegar à terceira unidade de sua escola?

Acho legal falar rapidamente de todas pra ter uma idéia geral. A da Lagoa surgiu em 2006 quando eu tive literalmente que construir o primeiro estúdio, onde funcionava uma clínica com as paredes de vidro, quer dizer, não dava né ? Resultado: muito tijolo, cimento, madeira, paredes, teto (isso mesmo, tive que fazer o teto), madeira, lã de rocha e encheção de saco com os operários. Na Tijuca eu baixei hospital no meio das obras e o Raul, gerente da escola, tocou toda a obra com um ótimo resultado.

Bom, a escola da Barra surgiu meses depois da escola da Tijuca e foi um processo vitorioso do Jonas, meu filho, com o Cláudio, sócio dele, que fizeram praticamente tudo, e eu fiquei só dando alguns pitacos eventuais. O resultado ficou excelente. Tanto na Lagoa, quanto na Tijuca e na Barra, tivemos a sorte de achar bons locais porque isso é crucial.

O fato de ter chegado à terceira unidade significa que o trabalho da primeira foi bem feito, e abriu espaço para as outras. Isso sem dúvida é uma conquista, e deixa um gostinho de gratificação, mas o trabalho e a responsabilidade aumentam muito, e você tem que se desdobrar pra corresponder. Mas é um desafio que vale a pena.

Quais as grandes dificuldades que existem atualmente para manter um espaço de ensino musical?

Você fez a pergunta certa, porque é mais difícil manter do que abrir o espaço. É claro que a abertura de um espaço novo tem seus próprios desafios, e não são poucos. Em nosso país a iniciativa pessoal bate de frente com problemas incríveis, e você tem que ter muita paciência, disposição e acreditar muito no seu projeto porque tudo parece concorrer pra que você desista. Isso é um fato. O outro passo - transformar esse espaço numa coisa vitoriosa - é ainda mais desafiador, porque alunos não dão em árvores, e você também precisa formar um bom time de professores e funcionários, além de montar uma estrutura que resista às intempéries dos primeiros meses. Então você precisa estar muito seguro do serviço que está oferecendo pra poder passar por essas etapas. Não pode ser uma coisa tipo vamos ver como é que fica, tudo tem que ser planejado e razoavelmente previsto.

Você possui diversos métodos lançados, está na terceira unidade de sua escola e material lançado em vídeo. Quando ensinar tornou-se parte de sua carreira, e o quão importante é isso para você?

Eu sempre gostei muito de dar aula, mesmo lá atrás, ainda na época dos Mutantes, eu dava um jeito de ter um espaço na minha casa pra montar uma bateria e dar aula. Isso me forçava a pesquisar pra aumentar meus conhecimentos, porque, afinal de contas, tocar bateria era o meu ofício de fé. A curiosidade e a vontade de saber sempre estiveram presentes em mim, como está até hoje.

Em 92, quando saiu meu primeiro método, passei a investir mais tempo nas aulas porque comecei a viajar pra fazer workshops e as pessoas me ligavam de várias cidades fora do Rio e de outros estados. Ao mesmo tempo, eu sentia um grande prazer em estudar bateria, felizmente isso sempre foi assim.

Em geral os músicos deixam de dar aula porque precisam viajar pra fazer os shows. Eu fiz o caminho inverso: parei de investir na minha carreira free lancer pra ter mais tempo pra dar aula e estudar. Logicamente isso teve um alto preço, mas eu estava muito firme diante dos meus propósitos. Mas eu não decidi isso sozinho, essa força veio do Senhor que me guiou o tempo todo, como em todas as etapas cruciais da minha vida.

Qual o conceito base que procura desenvolver com seus alunos?

Nós temos um programa infantil para crianças até 7 anos, além do programa do curso regular de bateria que é profissionalizante e tem como objetivo preparar o aluno para que ele possa exercer, se quiser, o ofício de baterista e atuar em qualquer tipo de trabalho, seja com uma banda ou fazendo shows e gravações com artistas de qualquer nível e estilo. Mas na verdade é o próprio aluno que se forma, se ele não fizer uso adequado das apostilas que são distribuídas no curso, ele não vai chegar lá, e é por isso que nós deixamos o aluno à vontade pra que ele mesmo decida até onde quer chegar. Quando o aluno tá a fim de se desenvolver e tem talento, o professor automaticamente assume uma postura mais exigente porque o programa tem mecanismos para se expandir.

Como o fato de você ter sido autodidata influenciou na montagem de sua metodologia?

Eu estudei e pesquisei bateria a minha vida toda. O programa atual das três escolas começou lá atrás com as minhas próprias anotações, coisas que eu descobria e desenvolvia, porque até dormindo eu pensava em bateria e tocava mentalmente acompanhando com os dentes. Eu sempre gostei tanto de estudar quanto de tocar, não havia diferença, por isso, tudo foi ficando cada vez mais natural e espontâneo..No começo eu ainda usava exercícios selecionados de algum livro, mas logo comecei a compor meus próprios exercícios porque isso tudo resultava em dezenas de manuscritos. Isso era uma febre porque eu queria porque queria tocar do mesmo jeito que tocava na cabeça, não admitia perder pro meu pensamento.

Comente um pouco sobre o início de sua carreira, na época em que você tocava com as bandas Veludo Elétrico (ao lado de Lulu Santos) e Sociedade Anônima. Como era ter uma banda nessa época?

Foi um tempo bom. O comecinho mesmo foi lá em Niteroi, aos 15 anos mais ou menos, fazendo bailes com meus conjuntos da época (Os Corujas, Zoom 2000, Musi Show). Depois veio o Sociedade Anônima, eu ainda morava em Niteroi, onde nasci, e tocava em concertos de rock (chic né ?) no MAM, Villa Lobos e outros lugares, sempre com muito improviso, muita vontade e muita garra. Me lembro que no MAM certa vez tivemos que carregar o palco, isso mesmo, montar o palco antes de colocar o equipamento. Minha primeira gravação profissional em estúdio foi com o Sociedade Anônima, gravamos a música Solto no Ar para uma novela da tv.

Com o Veludo Elétrico nós inauguramos o primeiro espaço underground do Rio que ficava nos porões da faculdade Cândido Mendes, em Ipanema, um barato total que infelizmente durou pouco mas deixou saudades porque era um point onde se reunia todo o pessoal que curtia rock e rolava som até a madrugada, coisa linda.

Me lembro que cada vez que subia ao palco eu era tomado por uma carga de energia que percorria todo o corpo, parecia um dínamo. Tocar em público era uma experiência totalmente mágica, literalmente maravilhosa e única.

Você consegue traçar um paralelo com o mundo atual? Quais são as diferenças principais em termos de ter uma banda autoral?

A produção de um disco por exemplo, é muito mais fácil agora, nem se compara. Antes você tinha primeiro que assinar um contrato com uma gravadora pra ter o trabalho de sua banda gravado. Hoje você faz uma pré produção em casa com qualidade, e com um pouco mais de grana pode até gravar a bateria e instrumentos microfonados.

Basicamente o processo ainda é o mesmo: você precisa divulgar seu trabalho pra poder tocar. Só que hoje em dia você dispõe de meios diretos de comunicação e pode fazer boa parte dessa divulgação sentado numa cadeira, de frente para um computador. Quer dizer, nesse ponto facilitou muito, né?

E o que você acha que piorou? Ou que era mais fácil na época e atualmente se complicou.

O que era mais fácil mesmo era minha própria vida que era bem mais simples e eu só tinha que me preocupar com a bateria e com a banda, e gastava todo meu tempo nisso e não sentia falta de mais nada, meu mundo estava completo ali, daquele jeito. No geral não vejo nada que tenha piorado não, pelo contrário, até melhorou em alguns aspectos, como o do equipamento de monitoração de palco e PA, que na época não tinha pra alugar, então, nós que não queríamos ficar à mercê de qualquer meia dúzia de caixas de som que aparecesse na hora, tínhamos que ter tudo: instrumentos, monitoração, PA, e um caminhão pra carregar tudo, aliás depois de um tempo eram dois caminhões, porque um deles era pra carregar somente as caixas de grave que mediam 3 metros e meio de largura por um e meio de altura e profundidade cada uma, sem nenhum exagero. Coisas dos anos 70 meu irmão, mas o que é legal frisar é que a gente não corria do pau não; se era pra melhorar o som então a gente caia dentro, mesmo sabendo que o custo operacional do show iria aumentar, porque tínhamos esse ideal, fazer as pessoas viajarem não só com a música, como também com o ambiente sonoro. O resultado disso é que constantemente as pessoas apareciam chorando no camarim depois dos shows para nos agradecer. Quer dizer, isso não tem preço, como dizia a propaganda. Aliás, isso aconteceu de novo recentemente, num reencontro da banda.

Quais eram suas influências na época?

Principalmente Beatles e mais tarde, Steppenwolf, Procol Harum, Jimi Hendrix e uma lista infindável de bateristas, bandas, cantores e músicos que eu curtia, mas sinceramente nunca me preocupei em tocar igual a ninguém. Se você me perguntar qual foi o baterista que eu mais ouvi eu digo que foi o Ringo, nem tanto por ele, mas por causa dos Beatles, embora eu considere o Ringo genial.

Acho legal dizer também que, por volta dos 16, 17, 18 anos, eu ouvia muitos discos, praticamente o dia todo, e isso certamente influenciou tudo que eu fiz daí em diante. Eram quase todos os grupos de rock da época, mas ouvia também muita música brasileira, samba, jazz, quer dizer, era muita diversificação, e essa salada sempre se deu muito bem com o meu temperamento eclético por natureza.

Atualmente quais são suas influências?

Influência mesmo no sentido exato da palavra acho que não tenho nenhuma, mas gosto de toda música que chegue prazerosamente aos meus ouvidos e que tenha sido feita num patamar superior de elaboração e inspiração. Caetano Veloso por exemplo, consegue manter até hoje um frescor musical muito raro para um artista consagrado, chegando mesmo a fazer música quase experimental. Isso mostra que o cara ainda está preocupado em buscar novos ares pra sua música, e isso não é todo mundo que faz.

Eu me identifico com essa inquietude que faz com que eu me sinta sempre em débito com a criação, seja musical ou baterística, porque é esse sentimento que me leva de encontro aos meus achados mais originais.

E seu lado compositor? Quando ele começou a aflorar?

Por volta de 1975 comprei meu primeiro piano acústico e comecei a compor algumas músicas e fazer arranjos. Nos anos 80 surgiu um gravador pequeno que fazia play back (esqueci o nome dele), e isso me motivou a compor cada vez mais, com a vantagem de ouvir depois a música por inteiro, só que toda gravada no piano, ou seja, a base era o piano, assim como o baixo, as melodias e os contra solos. O resultado era uma verdadeira pianada que eu procurava diferenciar gravando em oitavas diferentes e diferenciando os volumes. É aquela velha história: quem quer faz, né mesmo? Depois era só ouvir dezenas de vezes, regravar outras dezenas e por fim escrever o arranjo definitivo. Daí surgiu a minha velha mania de escrever a música toda, até a linha do baixo.

Geralmente quem toca um instrumento harmônico/ melódico além de bateria, acaba abordando o kit de uma forma diferente. Como é isso para você?

Bom, eu não gosto de afinar tonalmente a bateria, ou seja, afinar o instrumento dentro de uma tonalidade pré fixada. A relação tonal entre os tambores sempre vai ter porque um é mais grave ou mais agudo que o outro, mas não tenho como ponto de partida nenhuma nota musical. Essa relação tonal quem vai definir é o próprio tambor, no momento da afinação, aí vejo no conjunto como é que eles estão soando.

A afinação da bateria acaba determinando o jeito que você vai tocar. Uma caixa muito aguda acaba sendo uma tentação danada pros rulos de toques duplos né? Você tem que dosar a mão pra não exagerar. Numa afinação mais baixa aí você procura usar mais os toques simples e deixar mais espaço para que os tambores respirem um pouco, porque essa é a deixa que os tambores graves te dão.

O que o estudo do piano e da harmonia me deixou de herança foi o desenvolvimento do meu ouvido musical, e isso me ajuda muito na hora de definir o arranjo da bateria, porque me sinto familiarizado com o que os outros instrumentos estão fazendo, então essa familiaridade me deixa mais dentro da música e até me dá mais coragem para eventualmente experimentar alguma coisa mais ousada.

Quero só acrescentar que eu não sou nem me sinto pianista. Apenas tenho uma facilidade para compor, arranjar e harmonizar, mas tudo lentamente, pois não tenho agilidade com isso, tanto é que eu não consigo tocar uma música minha inteira no piano, eu tenho que pegar as partituras, ver trecho por trecho e aos poucos emendá-los. O que tenho de bom é a persistência de procurar a nota certa para a melodia ou harmonia e não me contentar sempre com a primeira idéia. Estudei um pouco de escala, solfejo e harmonia funcional, isso me ajuda nas opções musicais, mas a música mesmo nasceu comigo, isso não tem jeito, é da minha natureza.

Como você enxerga o futuro do ensino musical no Brasil?

Com bons olhos. O Brasil é um país super musical e vive a música no seu dia a dia. Acredito que daqui a pouco a música terá seu espaço no programa escolar em escala geral. Tá demorando, é verdade, mas acho que chegaremos lá. Isso tudo vai acontecer a partir de uma demanda social que já está em andamento, e é uma questão de tempo.

Músicos autodidatas como eu serão cada vez menos porque a oferta de escolas vai sempre aumentar. O cara pode ter uma facilidade musical fora do comum, mas se ele junta isso com um bom curso na sua área, é claro que ele vai decolar muito mais rápido. Uma das coisas mais erradas que eu ainda ouço de vez em quando é músico dizer que o estudo vai atrapalhar a criatividade. Isso não tem nenhum fundamento, onde já se viu algum setor da atividade humana piorar com os estudos?

Conte sobre sua época com os Mutantes. Como era o dia-a-dia?

Era um tempo bem diferente em que fui muito feliz. Nós ensaiávamos, e boa parte do tempo morávamos, numa casa grande em Itaipava com um rio que passava ao lado, que era do nosso querido amigo e empresário, Samuca. Tínhamos um quarto pra cada um, inclusive pro roadie (sim, o roadie morava com a gente) muita área verde e um salão de jogos transformado em estúdio. Normalmente acordávamos depois do meio dia porque tínhamos ido dormir com o dia raiando. Daí partíamos pro café da manhã, almoço por volta das 4 ou 5 da tarde, depois partíamos para o estúdio até que a fome nos forçasse a uma parada para um lanche e recomeçar tudo de novo até o clarear do outro dia.

Mais ou menos duas vezes por mês saíamos pra fazer um show, e quando era em São Paulo e arredores, parávamos na casa dos pais do Sérgio, no bairro de Higienópolis, pra reciclar e curtir um pouco de Sampa. Note que a gente reciclava as idéias na cidade, e não na natureza, porque já morávamos lá. Muito luxo né?

Enfim, era só alegria, num espaço de tempo que passou como um raio em cinco anos inesquecíveis que marcaram toda a minha vida.

E as ideias musicais? Como era a troca que gerava as composições?

Bom, com os Mutantes a gente improvisava, improvisava, até que alguma parte se repetia e isso acabava sendo o embrião de alguma futura música que depois seria desenvolvida por algum membro da banda ou pela banda toda em um outro ensaio. Dizem que os pássaros possuem alma em conjunto, acho que Mutantes era um pouco assim: onde um ia, a banda inteira ia atrás. A gente confiava tanto nisso que se dava ao luxo de improvisar no meio da música, em pleno show, e depois voltar pro arranjo sem nenhum problema, como se nada tivesse acontecido. Fizemos isso até no estúdio, no final da música Tudo Foi Feito pelo Sol, que passou a integrar o arranjo definitivo da música. Então essa era a troca que havia entre nós, baseado numa sólida parceria, profunda confiança e na admiração que um tinha pelo outro.

As músicas novas surgiam também quando um dos membros apresentava a música no violão ou no piano. Em seguida íamos pro estúdio tecer os arranjos.

E o seu papel como compositor na banda? Você também assina a faixa Deixe Entrar um Pouco d’Água no Quintal. Qual era o espaço que você tinha para surgir com suas ideias?

Naquela época eu tinha quase nenhuma rodagem com o piano, isso não me facilitava em nada, então eu guardava minhas idéias pra hora do ensaio, já na bateria, aí elas surgiam mais facilmente, mas mesmo assim não era muito fácil porque na bateria fica difícil você passar a idéia do arranjo, a não ser quando vinha a parte melódica na cabeça, aí era engraçado porque eu tinha que parar o ensaio e fazer com a boca o que eu queria. O legal é que eu tinha espaço pra fazer
isso porque a banda tinha como base o respeito mútuo.

Com Deixe Entrar um Pouco D’Água no Quintal foi um lance curioso; nós estávamos com tudo pronto pra vir pro Rio gravar o disco (Tudo foi Feito pelo Sol). O QG da banda ainda era na Serra da Cantareira, em São Paulo. Tudo pronto mas faltava um detalhe: a letra dessa música. Então, eu, que nunca gostei de pendências, resolvi fazer a letra sem nunca ter feito uma antes. Passei uma noite inteira acordado e na manhã seguinte a letra estava pronta.

O que você costumava praticar na época?

Quero lembrar que até meados da década de 70 havia, até onde me chegava às mãos, um único livro de bateria no Brasil que é aquele famoso do Gene Kruppa. Ali eu entrei em contato pela primeira vez com assuntos fundamentais como Paradidles e Rolos. Tinha também umas coisas meio chatas de up and down, mãos pra cima e pra baixo, que eu nunca tive saco suficiente pra estudar. Fora isso o que eu gostava mesmo de fazer era botar os pés e as mãos pra tocarem cada vez mais rápido. A Independência Motora por exemplo ficava em segundo plano. Aconteceu que só mais tarde fui descobrir que eu quase não estudava, e sim, tocava. Eu era meio psicótico com bateria e não saia de cima dela o dia inteiro, simplesmente porque não conhecia nada melhor que me desse tanto prazer.

Um pouco mais pra frente comecei a entrar em contato com alguns outros métodos e tinha um amigo que foi estudar guitarra em Berkley (escrevi certo?), daí que ele me enviava pelos Correios alguns livros e apostilas do curso de bateria. A partir daí comecei a sistematizar mais meus estudos.

Conte também como era sua rotina de estudos desde que começou, e o que fez você se desenvolver como músico.

O ponto de partida do meu desenvolvimento foi a minha curiosidade e a sede de aprender. No caso da bateria foi a descoberta gradativa de todos os tópicos relativos ao estudo desse instrumento fantástico. Coordenação, Velocidade, Independência, Técnicas, Ambidestria e etc, isso tudo faz parte de um mundo de coisas que eu fui descobrindo aos poucos e tinha que abordar tudo. A minha rotina nunca foi fixa por muito tempo, ela sempre mudou em função das minhas descobertas porque basicamente trata-se dos mesmos tópicos, só que os modelos dos exercícios variam muito e você precisa ver qual o melhor pra você no seu momento. Como não havia ninguém pra me orientar e muito menos escolas de bateria, tive que fazer sozinho minhas próprias descobertas. Na verdade isso foi maravilhoso pra mim porque acabei forjando um jeito meu de tocar, mas acredito que a vida sempre deu o melhor pra mim e fico muito feliz por ter sido assim, mas sem dúvida que se eu tivesse tido uma orientação formal adequada eu teria poupado muito tempo nessa história.

O meu desenvolvimento como músico teve um impulso maior depois que comecei a estudar bateria com mais objetividade, unidos aos estudos do piano e similares. Mas é claro que esses desenvolvimento só aumenta com o tempo e a experiência. Mas é um engano dizer que o tempo só traz coisas boas, ele também pode enterrar o vigor e o frescor musical, se o cara não se cuidar.

E seu material em DVD Workshop para Bateria e Teclado junto com Fernando Moura. Qual a concepção?

Nos final dos anos 70 e toda a década de 80, eu e o Fernando trabalhamos juntos em muitos shows, viagens, gravações de todo tipo, e sempre tivemos uma identificação musical e pessoal muito consistente. Fizemos várias tentativas anteriores de dividir um trabalho solo e nunca conseguimos. Derrepente, não me lembro quando nem porque, surgiu a idéia desse DVD que não teve nenhuma pré concepção, a não ser a vontade de fazer algo diferente do que já tínhamos feito.

Começamos a ensaiar no estúdio da oficina da Lagoa e era assim: quando era música do Fernando ele mostrava a música toda sequenciada, menos a bateria. Quando era música minha, eu ia pro estúdio dele em Botafogo e fazíamos o sequencer, daí então partíamos para os ensaios. Nos ensaios eu tocava de headphone, que escondia muitos detalhes do sequencer, por isso, nunca ouvia todas as vozes sequenciadas, e, pra você ter uma idéia, aconteceu que, em algumas músicas, eu só fui ouvir tudo que estava sequenciado quando o técnico abriu todas as vozes nos canais da mesa, isso já no dia da gravação. Felizmente os arranjos da bateria, que já estavam prontos e escritos, foram todos na mosca e eu não tive que mudar nada.

Outro detalhe curioso desse trabalho é que, pela primeira vez, eu decidi que os arranjos da bateria seriam quase totalmente escritos. O resultado disso é que mais ou menos 90% da bateria é sempre tocada da mesma forma, porque os arranjos são muito diferentes, intrincados e com muita parte ambidestra. Tive até que acrescentar, do lado esquerdo do contratempo, um surdo, um tom e uma caixa, além do tamborim e da panelinha, para as levadas com a esquerda. Foi o kit mais completo que eu montei até hoje.

E seus discos solo? Como eles foram nascendo? (Sempre houve um processo similar ou algum deles foi totalmente diferente)?

O processo foi sempre o mesmo: tudo começou com aquele gravadorzinho que fazia play back. Daí eu comecei a produzir freneticamente as músicas e os arranjos juntos, guardava tudo naqueles envelopes de papel pardo e continuava o processo. O resultado é que acabei fazendo músicas para vários discos, e até hoje não gravei tudo ainda.

Houve uma fase, nos anos 80, em que eu compunha muito e ficava com as mãos suando frio porque as ideias vinham em cascata na minha mente e eu não conseguia registrá-las na mesma velocidade. Isso causava um grande desconforto porque eu sempre acabava perdendo muita coisa.

Outra coisa engraçada que acontecia é que, não raramente, minha mão escorregava e errava o acorde que estava programado, mas acabava saindo uma solução harmônica muito melhor. Coisas do arco da velha, né?

Para fecharmos, que dica você pode dar para quem pretende ter uma carreira de sucesso na música, assim como você?

A melhor dica continua sendo a dedicação de horas a fio em cima do instrumento e fazer um estudo direcionado e consciente, fugindo sempre dos desafios que não sejam bons pra seu desenvolvimento pessoal. Quer um exemplo? Uma vez comecei a ver um livro de fugas para a bateria; isso mesmo, fugas como a de Bach. Você começava com a direita tocando a caixa com um chocalho no lugar das baquetas, e a esquerda entrava no terceiro compasso fazendo a mesma coisa que a direita tinha feito no primeiro, e assim por diante com os pés. Se você conseguisse passar do oitavo compasso experimentaria uma sensação incrível de vitória e encheria seu ego, mas como exercício para desenvolver a Independência Rítmica certamente tem outros não tão específicos que cumprem essa missão com muito mais objetividade. Quer dizer, é a velha história: isso pode ser bom para uma demonstração ou um workshop por exemplo, mas não exatamente para seus estudos.

Pra finalizar quero agradecer à Modern Drummer e ao Vlad por me darem espaço pra falar sobre coisas que eu gosto tanto e responder a perguntas que me remeteram a fatos tão legais da minha vida. Muito obrigado de coração.

Entrevista publicada na revista Modern Drummer em Abril de 2015
Por Vlad Rocha


Clipping

Revista Backstage, dezembro 2003 - por Maria Fortuna

Rui MottaEmbora nenhum membro de sua família tenha seguido a profissão, a música sempre esteve presente na vida de Rui Motta. Desde pequeno ouvia por tabela os discos de Waldir Calmon e Nelson Gonçalves, pois seu pai era um fã incondicional do cantor. “Os arranjos eram muito bons e eu já me ligava no som geral da música”. O avô também era referência para o ouvido e, por intermédio dele, Rui conheceu os boleros de Lutcho Gattica. “Essas são as lembranças mais remotas que me despertaram interesse pela música”, conta.

Aos treze anos Rui ganhou um tarol (pequena caixa que se toca com duas baquetas) de Natal e este foi o pontapé inicial para que ele mergulhasse de vez no universo da música, passando de ouvinte a um profissional, mas nunca abandonando o hábito de escutar tudo que tivesse oportunidade. Chegou a ensaiar na banda do Liceu Nilo Peçanha, mas o grande divisor de águas em sua vida foi quando ouviu pela primeira vez a música She loves you, dos Beatles. “Me transformei num maníaco musical, ouvindo tudo que era possível. O curioso é que anteriormente eu já tinha ouvido Paul Anka, Elvis Presley e todo esse pessoal embrionário do rock que, na verdade, não me disse muita coisa. Gostava também de uma banda de São Paulo chamada The Jordans”.

A opção pela bateria foi certeira, pois o instrumento sempre monopolizou a atenção de Rui. Prova disso é que uma das principais dificuldades que ele teve que vencer foi ouvir o som da música por completo. “No início, eu me concentrava demais nela”, revela. Mas a paixão pelas baquetas nunca foi empecilho para a admiração e até para o uso de outros instrumentos. “Gosto de contrabaixo e piano, que cheguei a estudar durante algum tempo e uso para compor e fazer os arranjos”.

O apoio e o incentivo da família foram fundamentais no início daquilo que seria sua futura carreira musical. E haja compreensão, pois o garoto abandonou o estudo para seguir uma das carreiras mais incertas desta vida. “Meu pai chegou a ser empresário da minha segunda banda, Os Corujas, que tocava toda semana em bailes por todo o estado do Rio, levando inclusive minha mãe a tiracolo. Sou muito grato a eles por tudo que fizeram para satisfazer a vontade ferrenha de um garoto de dezoito anos que abandonou os estudos no meio de uma prova final do segundo grau para seguir a vida tocando bateria”. Pra compensar e provar que estava certo, quatro anos depois Rui já estava tocando numa das maiores bandas do país, os Mutantes, e cedo aprendeu a lidar com obrigações profissionais. A partir daí, sua carreira deslanchou e sua vida era só trabalho. As lembranças desta época são as melhores possíveis. “Tenho um temperamento simples e isso sempre me facilitou o acesso às pessoas. Costumo manter um bom padrão de relacionamento e isso me leva a ter uma boa lembrança da grande maioria dos projetos em que me envolvi”.

Formação

A prática sempre foi a escola de Rui. A primeira bateria com a qual tomou contato foi o seu próprio kit. Descobriu por sua conta que sabia tocar algumas batidas de rock e até um sambinha, sem nunca ter estudado. “Simplesmente porque fazia isso mentalmente e também tocava no sofá lá de casa”, conta. Sua grande curiosidade em ouvir de tudo foi outra fonte importante de aprendizado. “A audição me dava a possibilidade de satisfazer a grande vontade que eu tinha de entender todos os detalhes da música e eu realizava isso no plano puramente mental, por meio da repetição massiva do disco”, diz ele, acrescentando que a audição supria, em parte, a falta de estudo formal e serviu como ponte para desenvolver o gosto pelos arranjos. “Não só o da bateria como o de cada instrumento e o da música por inteiro. Ficava também ligado no timbramento dos instrumentos e na dinâmica. Tinha também toda a questão técnica dos modelos dos instrumentos e da mixagem, que me interessavam”, comenta ele, que toca numa Concept, da RMV, e está mais do que satisfeito com ela. Houve ainda a grande “escola” adquirida nos bailes (literalmente) da vida. “Pude colocar em prática a capacidade auditiva recém-adquirida para identificar e reproduzir os arranjos ao vivo. Esse período foi importante não só pelo lado eclético, pois tinha que tocar vários estilos e ritmos diferentes, mas também pela própria disciplina de tocar em conjunto”.

Além das próprias circunstâncias da vida, o fato de ser autoditada também foi uma imposição da estrutura da época, pois, segundo Rui, não havia escolas nem professores de bateria. “Pelo menos, eu não sabia onde eles estavam. Métodos de bateria disponíveis no Brasil eram pouquíssimos”. Graças a um amigo que foi estudar lá, teve acesso a livros e apostilas do curso de bateria ministrado na Berklee.

Mas, mesmo sem um aprendizado formal, o estudo sempre permeou a carreira de Rui e foi a partir das aulas informais de divisão rítmica que teve com Luciano Alves que o músico reafirmou sua paixão pela bateria. “Fui mergulhando naquele mundo que se abria e comecei a estudar bateria paralelamente ao piano. Dividia meu tempo entre os dois instrumentos e cheguei a fica quatorze horas por dia, estudando e praticando. O gosto pela bateria foi aumentando e virou uma fissura, foi quando parei de praticar o piano porque precisava do tempo integral para a bateria”. Rui também teve aulas de harmonia com Izidoro Kutno. Livros de teoria musical funcionavam como fontes de consulta. “Minha formação sempre se realizou informalmente e tem como espinha dorsal a minha sede insaciável pelo estudo, que continua até hoje a pleno vapor”.

Cursos e livros

Durante muitos anos, Rui Motta testou e desenvolveu um programa completo de um curso individual de bateria, reconhecido pelo Ministério da Cultura. “Me concentrei em organizá-lo dentro de um padrão que habilite profissionalmente o baterista, explica. O curso é dividido em quatro níveis, as apostilas são numeradas, pode-se acompanhar a progressão do programa dentro de uma abordagem personalizada, pois as aulas são individuais. “Todo o conteúdo do programa é apoiado por áudio por meio dos CDs com as vinhetas, músicas e exercícios para serem acompanhados tipo play along. Mas o que eu posso dizer de mais objetivo sobre esse programa é que não existe nenhuma possibilidade de o baterista não atingir sua meta, a não ser que não faça aquilo que o curso prescreve”, garante.

O baterista também foi pioneiro ao publicar livros com métodos de bateria e diz que foi puramente por acaso que se aventurou na escrita. “Em 1992, estava com muita vontade de praticar, mas não tinha nenhum material disponível a não ser os velhos métodos que já tinha escutado. Comecei então a escrever alguns exercícios que eu gostaria de encontrar num livro e não parei mais. Em quarenta dias escrevi tanto que a idéia da publicação veio naturalmente e então comecei a revisar aquele material com essa intenção. Jamais tive uma idéia preconcebida de escrever um método”. A continuidade dessa “brincadeira” foi conseqüência de seu interesse por todos os aspectos envolvidos quando se toca bateria. “Mergulhei de cabeça nessas pesquisas. Não se trata apenas de inventar alguns exercícios desse ou daquele assunto, você tem que entender o estudo da execução da bateria como um sistema integrado que se compõe de muitos tópicos interligados, mas que devem ser considerados individualmente”. Segundo Rui, é preciso descobrir as leis que regem ritmicamente o sistema motor para poder praticar e desenvolver com eficiência esse ou aquele setor. “O que eu procuro fazer é entender essas leis motoras para poder prescrever os exercícios realmente eficientes, ou seja, aqueles que são os mais bem sucedidos na difícil tarefa de elevar o padrão rítmico do baterista. O corpo humano é como chiclete, você pode moldá-lo a seu bel prazer pela repetição massiva de qualquer movimento. Isso é o bê-á-bá da coisa, mas o que me interessa é preparar o corpo para atender a todas as demandas rítmicas que se pode imaginar e sair tocando, sem precisar fazer essa ou aquela adaptação no sentido de facilitar a coisa toda, porque se você está realmente preparado não precisa facilitar nada, apenas sai tocando naturalmente como se fosse fácil”.

Dicas

Para os que estão começando a se aventurar pela profissão, nada melhor do que algumas sugestões de músicos experientes para auxiliar no longo caminho que têm a trilhar. E Rui as tem na ponta da língua. “Estudar, se informar, ouvir, praticar, pesquisar, priorizar o trabalho musical ao invés da divulgação e, se possível, fazer música com melodia e harmonia, porque só com o ritmo já tem muita gente fazendo”, enumera. Para os baterista de plantão, as dicas são mais específicas. “Imaginar-se um maestro de uma banda composta de quatro músicos: os pés e as mãos. Esse é o caminho mais rápido para desenvolver a coordenação e a independência motora rítmica”. Estar sempre em dia com as novidades (desde os artistas que pintam no mercado até equipamentos que são lançados) também é fundamental para manter-se sempre atualizado.

Entrevista de Maria Fortuna publicada na revista Backstage em dezembro de 2003.

Revista Modern Drummer, 1997 - por Daniel Neves

Rui MottaDo rock ao instrumental com a mesma facilidade com que um camaleão que muda de cor, duas vezes eleito o baterista do ano (através da revista Rock), recorde de vendas com os Mutantes, indicação para o prêmio Sharp de 94 pelo seu primeiro CD, “Mundos Paralelos”, lançamento de quatro livros de métodos, mais apresentações e gravações com vários artistas como Moraes Moreira, Ney Matogrosso, Steve Hackett e Alberto Camerini, dentre outros. Para quem não conhece, com vocês Rui Motta!

Modern Drummer: Você passou de baterista de rock a baterista instrumental. Você acredita que isso é conseqüência de um amadurecimento musical ou simplesmente mudança de gosto?

Rui Motta: Não é à toa que o rock foi e continua sendo a maior e mais abrangente forma de expressão musical e de costumes que já houve, pelo menos até onde eu sei. Sendo assim, ele pode aparecer em diversos modelos diferentes e um deles é o que se resolveu chamar de música instrumental que, na minha opinião é uma maneira rock de expressão musical, não simplesmente música feita só com instrumentos. É assim que eu vejo a relação entre o rock e a música instrumental, sendo o primeiro a matriz do segundo, que se desenvolveu com uma linguagem própria; esse desenvolvimento sem dúvida impõe um amadurecimento.

MD: O rock é geralmente criticado por músicos que tocam instrumental. Como você vê isso, hoje?

RM: Se você vislumbrar a amplitude de alcance do rock (não confundir com rock’n’ roll), verá que não pode criticá-lo negativamente sem que essas fagulhas atinjam suas próprias roupas. Não me lembro de já ter visto ou lido algum músico da linha instrumental cometendo tal deslize; no entanto, todos sabemos que a carne é fraca e, por isso, sujeita a esses micos. Quero também aproveitar para dizer que o “músico instrumental” é apenas uma referência de catálogo pois, como já vimos, o rock é o pai do instrumental.

MD: Fale da parte rítmica dos Mutantes. Como era baseado o processo de composição da bateria?

RM: O processo de composição dos Mutantes, na minha época, era baseado na experimentação em grupo, ou seja, ficávamos horas improvisando e tecendo o roteiro musical sem dizer uma palavra, apenas tocando e procurando se concentrar em dar uma forma definida ao que se fazia. Isso acontecia na maioria das vezes e era muito raro eu conquistar a parte da bateria separadamente. Tudo acontecia dentro de um contexto grupal, onde o mais importante era a captação do espírito da música que se estava tocando. As palavras não valiam tanto.

MD: Qual momento histórico da sua carreira que você gostaria de citar?

RM: Vou citar três. O primeiro foi quando eu ganhei meu primeiro instrumento, pois não podia imaginar que nunca mais me afastaria da bateria. O segundo foi quando entrei para os Mutantes, o que me deu projeção e foi um marco definitivo entre o semiprofissionalismo e o profissionalismo. O terceiro foi o ano de 1993, quando, através do lançamento do livro “Bateria em todos os níveis” e do disco “Mundos Paralelos”, foi inaugurada minha carreira solo.

MD: Mudando de assunto, comente um pouco da sua formação musical e quais foram suas principais dificuldades de iniciante.

RM: Minha formação musical continua até hoje, pois não me considero alguém que já tenha chegado a algum lugar e espero sinceramente não chegar nunca, pois esse estado de espírito me inspira e fornece o combustível para ir adiante. Cresci ouvindo Nelson Gonçalves, Waldir Calmon e Lucho Gattica. Aprendi a tocar praticamente no palco, fazendo bailes, numa época totalmente carente de qualquer tipo de informação, escolas, livros, professores, etc., tanto que o primeiro contato que tive com uma bateria foi no meu próprio kit, uma Saema de madrepérola azul. No período anterior aos Mutantes passei um bom tempo ouvindo discos de tudo quanto era banda na época. Isso também foi uma grande fase de aprendizado pra mim.

MD: Do passado para os dias de hoje, como você avalia agora a situação do músico brasileiro?

RM: O Brasil é um país atípico, onde o modismo é cultivado em larga escala e os meios de comunicação não divulgam em escala suficiente a música que não está fazendo sucesso. Por conseqüência, está cada vez mais difícil a figura do empresário que poderia trabalhar com um público médio, de 100, 300, 500 pessoas, simplesmente porque esse público não está formado, embora exista. A outra conseqüência obviamente é a estreiteza do mercado de trabalho.
A música em larga escala no Brasil não é, nem de longe, um retrato cultural do país, apenas uma pequena parte dele.

MD: Em algum momento você pensou em desistir da música?

RM: Honestamente sim, mas graças a Deus, não levei a idéia adiante porque pedi ajuda através do Senhor Jesus Cristo, Seu filho amado, o único que tem legítima procuração para nos socorrer.

MD: Fale sobre a repressão da ditadura na época dos Mutantes. Você chegou a ter problemas? Explique um pouco a situação musical na época.

RM: O acontecimento mais marcante dessa época foi um show que fizemos no teatro Bandeirantes totalmente lotado, com gente saindo pelo ladrão. Um cordão de PMs estava na frente do palco fazendo não sei o que – nem eles sabiam – até que paramos de tocar e o Sérgio pediu que se retirassem, coisa que tiveram que fazer diante da reação ruidosa do público. Cheguei a pensar que iria direto para a cadeia depois do show, mas felizmente isso não aconteceu.

Tivemos também alguns problemas com liberação de algumas letras, mas não chegamos a ter nenhuma delas vetada. Existia, sim, uma paranóia no ar, fruto de uma perseguição idiota a tudo que eles não consideravam normal, dentro de um parâmetro altamente repressor. Foi uma época difícil, em que não só na música, como em todos os setores da vida, respirava-se um ar pesado, onde a música servia também de refúgio.

MD: Qual foi a importância de nunca ter tido aulas de bateria e sim de harmonia na sua carreira?

RM: Acho que toda a ação humana envolve perdas e ganhos. O fato de eu não ter tido aulas de bateria me favoreceu na medida em que tive de me desdobrar para descobrir como reproduzir aquilo que eu ouvia nos discos, por exemplo. Nem sempre conseguia meu objetivo, mas de tanto correr atrás, acabava descobrindo outras coisas que eram incorporadas à minha própria linguagem musical. O fato é que, por não ter tido orientação formal, acabei me tornando uma espécie de fanático pelo estudo que fazia por minha conta, chegando a ficar quatorze horas diárias em cima da bateria, numa certa altura da minha vida. Com relação aos estudos de harmonia, comecei a fazê-los porque senti que algo me faltava quando sentava ao piano para compor. Só mais tarde é que fui sacar a utilidade que esse conhecimento tinha no ato de tocar bateria. O conhecimento harmônico completa a bateria, assim como o conhecimento teórico da divisão rítmica é útil para qualquer tipo de músico.

MD: Como você conheceu Steve Hackett? Fale da gravação do disco.

RM: Conheci o Steve Hackett através do Waldemar Falcão, que fez a direção de estúdio do disco “Till We Have Faces”, do qual tive o prazer de participar, não só pelo ótimo clima que reinou no estúdio nos dias de gravação, quanto pela liberdade total de criação que tive. Um dos momentos de maior curtição foi na faixa em que eu e o Serginho Herval, do Roupa Nova, gravamos na mesma tomada, fazendo uma levada onde somente a pulsação foi combinada, justamente para deixar que tudo acontecesse de improviso, e foi o que aconteceu. Foi a primeira vez que gravei com duas baterias simultaneamente. Já tinha tocado no palco com o Moreno, do Terço, fazendo com duas baterias o show em homenagem aos Beatles (Mutantes e O Terço), que também foi um grande barato. Uma outra faixa que merece destaque foi um blues em 9/8 do qual não me lembro o nome, mas que foi simplesmente emocionante tocar. Diz a lenda que a mãe do Steve chorou ao ouví-la.

MD: Você passou por várias fases da tecnologia de gravações. Como você enxerga esse avanço tecnológico e como você grava sua bateria hoje?

RM: A técnica e a própria filosofia de gravação da bateria mudaram muito na década de noventa. Na década de oitenta predominava um estilo que considero nefasto, que era o de fazer com que os tambores fossem quase que totalmente abafados com toda espécie de material acusticamente neutralizante, com o fim de eliminar os harmônicos indesejáveis, via de regra mandando pra córner também os desejáveis, e, como sabemos, o som é feito de harmônicos. O resultado é que a bateria soava como se batesse numa caixa de sapatos. Hoje grava-se de uma forma bem diferente, procurando o som mais flat possível, que é o que eu também faço, valorizando o som do instrumento ao máximo. Desta forma os tom-tons pequenos levam vantagem porque são mais fáceis de afinar e liberam um som com mais pegada, além de terem controle mais eficiente do decay. No mais, é procurar aproveitar o som natural da sala de gravação com bons microfones ambientes, usando o mínimo possível de equalização.

MD: Como é o seu processo didático no workshop “Bateria em todos os níveis”?

RM: Pra mim, o maior desafio no workshop é conseguir o ponto de equilíbrio entre a informação, que vem com a parte didática, e a performance, que em alguns casos (e não são poucos) é o que mais importa para o público, principalmente o de pouca idade. Boa parte do público que frequenta wokshops não quer entender o que você está fazendo, muito pelo contrário, quanto mais ele achar inatingível aquilo que está ouvindo, melhor. Aí é que mora o perigo, porque enquanto você dá as devidas explicações, ao mesmo tempo deve deixar uma certa margem para que o ouvinte possa viajar um pouco naquilo que está ouvindo, até porque se você falar demais cansa, porque afinal de contas workshop não é aula. Procuro então exemplificar tudo aquilo que falo e entremear o programa didático com algumas músicas mixadas do meu disco, sem a bateria. Isso relaxa o público e o prepara para os próximos assuntos, já que eu procuro diversificar ao máximo.

MD: Há pouco tempo você lançou três livros com CDs. Explique esse projeto e sua metodologia.

RM: Eu fiquei mais ou menos um ano organizando, melhorando e acrescentando novos assuntos ao material que já tinha escrito, sempre com a intenção de dar uma cara pessoal ao conteúdo didático, o que não foi muito difícil, pois 90% do livro são coisas inventadas por mim. Neste ponto dois fatores foram bastante úteis: minha experiência de aulas particulares e a mania de praticar o instrumento fazendo estudo pesquisado, que nada mais é do que experimentar, porque é através da experimentação que você descobre novas coisas. Esta mania está arraigada em mim porque sou um eterno insatisfeito, não com o que realizo, mas com aquilo que sei. Outra coisa que atualmente não estou fazendo é comprar novos métodos, para que eu não tenha material de estudo; assim sou obrigado a escrever os exercícios de que necessito, daí saem os livros.

MD: Como você enxerga o mercado de livros didáticos no Brasil?

RM: Cada vez melhor, porque o interesse pelo estudo da música, na área de execução, está aumentado.

MD: Rui, entrando para um aspecto mais técnico, fale um pouco da sua afinação.

RM: Eu gosto da afinação mais baixa, com as peles mais soltas, para que os tambores possam dar aquela “gemida” característica, principalmente os maiores. Procuro mexer o mínimo possível na pele de cima depois de achar o ponto considerado ideal para o rebote da baqueta, mas este acaba sempre prejudicado porque as peles soltas absorvem muito mais o choque, prejudicando a técnica; porém, prefiro priorizar a afinação porque o som que os tambores (e os pratos) estão liberando é o que me dá retorno necessário para que eu acredite no que estou tocando.

MD: Você usa um kit diferente na gravação ou é o mesmo ao vivo?

RM: As condições gerais e principalmente acústicas que envolvem uma gravação e um show são muito diferentes, de modo que o ideal seria usar um kit para shows e mais outro, bem versátil, para gravações – e não variar nunca, para que, ao considerar o rendimento do instrumento, você pudesse contar sempre com resultados esperados. Confesso que há anos venho perseguindo este ideal, mas ainda esbarro no famoso custo operacional, que, na maioria das vezes, é quem dita as regras e aí meu bom amigo, é pegar ou largar. Nesses casos, o melhor é levar seus pratos, caixa, e dar uma boa checada na afinação, porque nem sempre você pode contar com o seu instrumento.

Entrevista de Daniel Neves publicada na revista Modern Drummer em 1997

Revista Música e Tecnologia, janeiro 2004 - por Rodrigo Sabatinelli

Rui MottaComo foi o início da sua carreira?

Comecei aos 13 anos, quando ganhei um tarol de presente de Natal e com um amigo fundei um bloco carnavalesco. Nós ensaiávamos o ano inteiro, mas nunca saíamos pra desfilar (risos). Aos 15 anos ganhei minha primeira bateria, na mesma época em que foi lançado o disco Rubber Soul, dos Beatles. Até então nunca tinha visto uma de perto. Para simular o instrumento eu ficava batucando nos braços e no corpo de uma cadeira de madeira (risos) e assim ia associando o som das peças com a sua posição, marcadas curiosamente por círculos de cordas. Desta maneira eu peguei meus movimentos iniciais de coordenação rítmica.

Qual foi sua primeira bateria?

Uma bateria nacional da marca Saema. Com ela, montei minha primeira banda, um power trio chamado Os Apaches. Era um grupo que tocava basicamente em festas de aniversário. Nós ligávamos o som do contrabaixo e a guitarra nas vitrolas dos aniversariantes e quando acabávamos de tocar, os falantes das caixas já estavam totalmente destruídos por não agüentarem a pressão dos instrumentos.
Quando foi seu primeiro contato com os palcos?

Com minha segunda banda - Os Corujas - que também tacava em bailes. Na verdade, essas apresentações foram essenciais para o meu crescimento profissional. Algum tempo depois, em 1968, fiz parte dos grupos Sociedade Anônima e Veludo Elétrico. O Sociedade foi um dos primeiros conjuntos de rock surgidos no Rio de Janeiro, e foi com ele que pisei pela primeira vez em um estúdio de gravação, para registrar uma faixa que faria parte de um compacto para o Festival Internacional da Canção da TV Globo, em 1971.

Como foi sua entrada para os Mutantes?

Eu entrei para o grupo em 1972, na fase pós tropicalista e após a saída de Rita Lee. Naquela época os Mutantes passavam por algumas transformações, deixando de ser uma banda performática para valorizar cada vez mais os arranjos e a sonoridade. O convite para fazer parte da banda partiu do tecladista Túlio Mourão, que tocava comigo, Lulu Santos e Fernando Gama (baixista do Boca Livre) no Veludo Elétrico. Ele conheceu o Sérgio Dias dos Mutantes, que o convidou para substituir o (tecladista) Manito, e na seqüência me convidou para também substituir Dinho, baterista que estava com problema nas mãos e impossibilitado de tocar.

...e assim você assumiu as baquetas do grupo?

É, eu fui para a Serra da Cantareira, São Paulo, local onde ficava o QG da banda e lá todos os dias surgiam mil bateristas para tocar com a rapaziada. Eu achava aquilo tudo maravilhoso, mas na verdade o que não sabia era que eu estava passando por uma bateria de testes, que envolvia todos esses músicos (risos). Certamente esta ingenuidade foi o que me beneficiou para conquistar a vaga e integrar a banda. Eu detesto competição. Quer me ver perder algo, basta me colocar para competir com alguém. Não nasci para competir. Se tiver que disputar alguma coisa, perco tudo; de purrinha a dominó.

Você foi eleito pela revista Rock duas vezes o melhor baterista do país.

Pois é. O mais curioso de tudo é que eu não tinha o menor conhecimento teórico. Eu tinha apenas 21 anos e tocava de ouvido, “na orelhada”. Comecei a estudar realmente por volta dos 23, 24 anos, quando tive meus primeiros contatos com teoria e harmonia. Daí, gostei tanto que comecei a dar aulas. Eu mal sabia pra mim mesmo, e já saí me aventurando a ensinar aos outros (risos). A partir daí comecei a pesquisar tudo sobre o instrumento.

Como foi sua passagem pela Europa com os Mutantes?

Nós fomos em 1977, a convite de um amigo que morava em Milão, o pintor Toninho Peticov. Passamos seis meses rodando a Europa, comprando instrumentos e aproveitando para tocar em alguns lugares. Esta experiência foi muito bacana, pois conhecemos diversos músicos como Ravi Shankar, John McLaughlin, The Animals.
Me lembro de um dado curioso, um show do Santana, em que ele e o grupo saíram apedrejados do palco, depois que a platéia incendiou o PA com coquetéis molotov. Naquela época os italianos tinham uma vida política muito intensa, haviam facções super radicais. Nós mesmos tocamos em um festival comunista, o Unità. Em Milão ainda gravei um disco com o Alberto Camerini, um cantor italiano. Quando voltamos para o Rio de Janeiro, fizemos um show na Sala das Convenções, em São Paulo, e outro na Concha Acústica de Ribeirão Preto, o último show de carreira dos Mutantes.

Em seu disco recém-lançado, Ilusão Motriz, há uma faixa que conta com um solo de bateria desse show...

Pois é. Quando estava em estúdio finalizando esta trabalho ganhei de um amigo colecionador dois CDs piratas dos Mutantes, editados no Canadá. Um deles era uma gravação deste último show. Um CD histórico, que tinha este solo de bateria muito interessante. Decidi incluí-lo como faixa do disco.

Com o fim dos Mutantes que caminho você seguiu?

Comecei a acompanhar diversos músicos como Ney Matogrosso, Marina, Zé Ramalho, Moraes Moreira, Sá e Guarabyra...Gravei vários discos e fiz trilhas sonoras para novelas, peças de teatro, jingles e filmes. Nessa época eu realmente explorei todo o meu lado musical como free-lancer.

Você chegou a gravar com Steve Hackett, ex-guitarrista do grupo Genesis em 1984...

É, eu fui convidado pelo produtor Waldemar Falcão, com quem ele estava trabalhando. Steve resolveu gravar no Brasil com a participação de alguns músicos nacionais. A experiência foi muito gratificante porque tive liberdade total para tocar, daí o resultado foi ótimo. Pena que o disco não saiu no Brasil.
Como foi feita a gravação do disco ao vivo dos Mutantes de 74?

Com um gravador Revox de dois canais. Naquela época ainda não existia unidade móvel. No Tudo foi feito pelo sol também gravamos ao vivo no estúdio da RCA. Os músicos tocaram de frente uns para os outros, em forma de círculo, como se estivessem num show de verdade. Esse sistema de gravação era utilizado também por um grupo chamado Free, que gravava seus discos ao vivo, no estúdio.

Você é saudosista no quesito captação de áudio?

O som da captação de bateria feita através de um gravador de 2” é inigualável. Podem dizer o que quiserem, mas a captação digital ainda é um pouco inferior se comparada à analógica. De fato, hoje em dia temos diversos plug-ins para simulação, que imprimem bons resultados, mas o sistema analógico sempre deixa o som mais vivo. Acredito que seja por uma questão de amplitude sonora. Particularmente, decidi que em meu próximo disco as bases de bateria serão todas gravadas em máquina de rolo, deixando o restante para a captação digital.

Como você vê o atual momento tecnológico?

Determinados tipos de recursos facilitam bastante a vida daqueles que não sabem tocar, digamos, os menos favorecidos musicalmente (risos). Acho que a profissão de músico será gradativamente valorizada por causa disso.

REPASSANDO CONHECIMENTOS

Quando decidiu lançar seu primeiro livro?
Eu sempre gostei de estudar música, especificamente bateria, mas todos os livros que havia lido eu conhecia de trás pra frente, então comecei a escrever exercícios que gostaria de encontrar nestes manuais. Com o tempo, este material tomou volume e naturalmente acabei formatando-o em livro. Mais tarde procurei a Editora Bruno Quaino que lançou meu primeiro trabalho, em 1992.

Você costuma produzir outros artista?

Produzi poucos trabalhos em minha vida, como o da banda Rio Acima, do Vale do Paraíba. Recentemente assumi a co-produção do disco do song-book do Daniel Azulay, mas definitivamente este tipo de trabalho não é a minha “praia”, ainda que este seja o caminho natural do músico.

Quais as suas principais influências como baterista?

Comecei minha carreira tocando rock e na pós-adolescência ouvia música o dia inteiro, desde a hora que chegava do colégio até dormir. Eu tinha uma sociedade com meu primo só pra comprar discos.

Como referência poderia citar o Ringo Starr, por ter sido o primeiro baterista que eu ouvi e me interessei. Um cara super musical e de uma criatividade fantástica, embora não tenha muita técnica. Mas o que importa mesmo é que ele cumpria sua função como ninguém dentro do Beatles. Na minha opinião, pesquisar e ouvir é muito importante para a formação do músico. Foi assim que eu aprendi a tocar.

Você conseguiu apoio junto a algumas indústrias nacionais por seu talento musical...

É, eu tenho endorsement da C. Ibañez, empresa fabricante de baquetas, que lançou minha série de baquetas: a 1200 Rui Motta. Recentemente assinei contrato com a fábrica nacional RMV, endossando a bateria Concept.

Como é o seu envolvimento com essas empresas?

É uma relação de confiabilidade. Procuro levar uma marca ou um produto para as pessoas através da minha imagem, por acreditar nelas. Quando escolho uma marca para endossar, é porque realmente gosto dos produtos que ela tem a oferecer

COMPOSIÇÃO: FACILIDADE

Como começou com esta história de composição?

Eu sempre tive uma facilidade muito grande para compor. Ficava em rodas de amigos batucando na perna e cantando uns sambinhas (risos). Acredito que estudar bateria e piano, tenha me aberto um pouco para a composição. O piano, em razão de ser um instrumento muito rico em harmonia, além de altamente percussivo, favorece a coordenação motora.

Quais são seus projetos para o futuro?

Tenho em mente um projeto imediato, que é a gravação de um DVD. Nele constará tudo sobre bateria: parte artística, didática, enfim, um material que as pessoas poderão consultar e estudar, assistindo a solos, performances de estúdio, de palco, ou seja, um produto completo. Além disso, pretendo continuar dando aulas e fazendo shows, workshops, gravar, tocar, tocar, tocar...

E onde você encontra tempo pra isso tudo?

Ah, quem ama música sempre dá um jeito para as suas realizações.

Entrevista de Rodrigo Sabatinelli publicada em janeiro de 2004 na revista Música e Tecnologia

Site Musical Sun, fevereiro 2007 - por Elias Nogueira

Rui Motta1) Como foi depois que Os Mutantes pararam, o que você fez em termos de trabalho como músico? Você já tocou com diversos artistas.

Rui Motta: A partir de 1978, quando a banda acabou, passei a tocar com vários artistas da MPB. Também gravei muita coisa de estilo diferente: de Steve Hackett (ex-guitarrista do Genesis) a Joe Eutanásia. Sem contar aqueles trabalhos do dia a dia que não aparecem muito, que são as trilhas para novelas, jingles, teatro, filmes institucionais e por aí vai. Coisas que já fiz muito. A partir de 92, quando saiu meu primeiro disco, passei a fazer shows com a Rui Motta & Banda, um velho sonho que estava esperando a hora certa de materializar. Quase ao mesmo tempo comecei com os workshops, que é onde eu me esbaldo porque os únicos compromissos são com a bateria e com um público que está ali exclusivamente pra me ouvir.

2) Você já lançou vários livros especializados em práticas musicais. Como foi que surgiu a idéia de você começar esse processo?

Rui Motta: Foi espontâneo. Nunca tinha passado pela minha cabeça fazer livro de coisa alguma. Até que em 1991 fui acometido por uma daquelas sedes de estudo que de vez em quando me ataca. Como eu já havia explorado bastante todos os métodos que eu tinha, passei a escrever os exercícios que eu gostaria de encontrar num livro. O resultado disso é que surgiu naturalmente a idéia de organizar aqueles papéis em formato de livro. E aí eu acabei descobrindo uma coisa altamente gratificante pra mim que é explorar a bateria e compilar os exercícios que indicam os caminhos mais curtos pra desenvolver a técnica e a coordenação do baterista.

3) Quantos livros têm lançados?

Rui Motta: Até agora são sete. O primeiro saiu pela Bruno Quaino Editora e os demais pela editora Irmãos Vitale.

4) O Curso 'Divisão Rítmica' já tem 2 volumes. O que diferencia um do outro?

Rui Motta: Bom, primeiro é importante lembrar que: o assunto "divisão rítmica" é fundamental porque cuida da parte matemática da música, que está por trás de tudo que se toque, não só na bateria, mas em qualquer outro instrumento. Falando, é claro, do padrão ocidental. Qualquer trecho musical, por mais simples ou complexo que possa soar, tem como referência uma divisão rítmica que é a parte dançante da música. O primeiro volume, com um CD, conta com as divisões básicas, pra quem está começando a explorar esse assunto, que é muito simples de entender. O segundo volume, conta com dois CDs e atende aos níveis médio e avançado, abordando os grupos quaternários, os subgrupos compostos, de sextinas, de fusas e uma compilação completa das quiálteras. Esse livro se propõe a resolver qualquer dúvida desse assunto porque inclusive tem os exemplos gravados que, de uma certa maneira, desmistificam aquele coisa do "difícil" de tocar. Pra quem considera a música uma coisa ampla, não pode deixar de ter.

5) Você recentemente abriu uma oficina de bateria. Como isso funciona?

Rui Motta: É um outro projeto antigo que, graças a Deus, pude realizar. Fica no Rio de Janeiro, na Fonte da Saudade, Lagoa. É uma escola voltada exclusivamente para o ensino da bateria e da percussão, para todas as idades, com professores muitos bem formados e preparados. Inclusive eu, modéstia à parte, dou aula. O curso de bateria tem quatro níveis e é profissionalizante, preparando o aluno para qualquer situação de trabalho dentro da música popular. A percussão abrange os ritmos brasileiros, afro-baianos, caribenhos e universais. A escola em si, é muito legal, tem dois estúdios com aulas multimídia e toda a parte de equipamentos e instrumentos de primeira linha.

Por: Elias Nogueira. Site Musical Sun, Rio de Janeiro-Brasil, data: 27/02/2007


Jesus Cristo é o Senhor