Mutantes

Show dos Mutantes realizado no final de 2013. Música "Pitágoras". Formação: Sérgio Dias, Túlio Mourão, Antonio Pedro e Rui Motta.

Mutantes 73-78 por Rui Motta

Muita coisa tem se falado dessa banda que marcou definitivamente a música em nosso país, mas existe uma lacuna a ser preenchida por alguém que tenha o ponto de vista interno da coisa, alguém que tenha vivido e sentido na pele todas as experiências contidas no período que vai de 1973 a 1978, do qual participei como baterista.

Vou começar contando como Mutantes entrou na minha vida e vice versa.

No comecinho dos anos 70 eu tocava com o Veludo Elétrico, uma banda underground carioca acostumada a receber mimos da mídia musical da época. Certo dia fui ver um show dos Mutantes no teatro Tereza Raquel, em Copacabana, e fiquei chapado com o som que eles tiravam. O equipamento era incrível e eu nunca tinha visto nada parecido, uma verdadeira experiência sensorial acústica. Foi a primeira vez que eu vi ao vivo uma banda tocando e soando profissionalmente, sem aquele ranço de experimentalismo que quase todas as bandas da época tinham.

Quero só frisar que esse Mutantes já era aquele que a mídia batizou de progressivo, já sem o Arnaldo Baptista e a Rita Lee, mas com o Sérgio Dias no comando. Não era mais a banda dos festivais e da Tropicália.

Na época desse show eu conheci o Sérgio Dias na casa da minha eterna amiga Eunice Valadares, no Jardim Botânico. A Eunice viria a ter, mais tarde, um peso crucial na decisão de mudar o QG da banda, de São Paulo para o Rio.

Na casa da Eunice o Sérgio conheceu o Túlio Mourão, que veio a ser o tecladista da banda pouco tempo depois. Eu conhecia o Túlio aqui do Rio, pois tocávamos no Veludo Elétrico.


O chamado

Aconteceu então que o Dinho, baterista dos Mutantes, teve um problema na mão e não podia mais tocar. O Túlio, que já estava na banda, me ligou de São Paulo convidando para integrar o grupo. Na verdade eu estava, sem saber, indo fazer um teste no qual disputei a vaga com uma penca de bateristas de São Paulo. O fato de não saber que estava sendo testado acabou sendo favorável a mim, que sempre detestei qualquer tipo de competição em se tratando de música.


A Mudança pro Rio

Depois de alguns meses em São Paulo onde ensaiamos rapidamente um repertório e fizemos alguns shows, acabamos nos mudando para o Rio, onde fomos nos fixar numa casa perfeita, em Itaipava, que era do Samuca, nosso querido amigo e empresário, e de sua família. Era uma casa grande com muitos quartos, muito verde, um rio passando ao lado, campinho de futebol e uma ampla sala de jogos que logo foi transformada em um espaçoso estúdio de ensaio.


O Último elemento

Faltava ainda a última peça da engrenagem – o baixista. Nessa época a banda estava assim: Sérgio Dias, Túlio Mourão, eu e Liminha, que logo se desentendeu com o Sérgio, abrindo espaço para o Antônio Pedro, velho amigo de Niterói que assumiu o baixo e encaixou como uma luva na banda.

Banda é como time de futebol, tem que ter os elementos certos, senão não adianta tentar, e essa sinergia aconteceu de imediato com o Pedro, tanto é que a partir daí o espírito da banda ficou tão forte que os shows passaram a ser verdadeiros acontecimentos.

Em consequência, um cenário muito favorável se estabeleceu, principalmente depois da gravação do novo disco – Tudo Foi Feito Pelo Sol que rapidamente caiu nas graças do público. A tal ponto que os quarteirões dos teatros onde tocávamos eram constantemente isolados por excesso de gente que ficava do lado de fora, sem poder entrar, por falta de lugar. Resultado – tínhamos sempre que fazer uma segunda sessão. Isso aconteceu várias vezes no teatro Aquarius e no Bandeirantes, em São Paulo, e, no Rio, no Tereza Raquel e no cinema Bruni 70. Naquela época isso não era nada normal.

Era muito comum as pessoas virem chorando aos camarins, algumas aos prantos, simplesmente para agradecer pela experiência que tinham acabado de ter. Sem dúvida a banda tinha uma força muito grande que passava para as pessoas. A música despertava essa energia positiva no público, que mandava de volta e nos realimentava. O ar estava sempre carregado de muita eletricidade positiva e expectativa, gerando um clima de muita excitação e contentamento. Os shows geravam um “algo mais” que alimentava corações e mentes.


Novo estilo e novo disco

Uma curiosidade: essa nova banda não tinha o compromisso formal com o arranjo. Podíamos, a qualquer momento, enveredar pelos caminhos do improviso e retornar mais adiante como se nada tivesse acontecido. E sempre dava certo. Não havia medo de errar, mas quando algo não encaixava o trem voltava pros trilhos imediatamente.

O estilo da banda mudou então radicalmente, contrariando uma parte da mídia conservadora, que não esperava um som tão diferente da antiga banda, da qual eu também sou fã incondicional. O que faltou pra esse pessoal - minoria absoluta, diga-se de passagem – foi um bom par de ouvidos desimpedidos para entender os novos estímulos musicais propostos por essa banda que ressurgia com um som que até hoje arrebanha novos fãs e acabou gravando o disco mais vendido da história da banda - Tudo Foi Feito Pelo Sol.Enfim, vida que segue, e seguimos...


As diferenças

Quais eram então as diferenças entre as duas versões da banda? Simples: a antiga versão, a do trio com Arnaldo, Sérgio e Rita, tinha como grandes aliados a postura irreverente, o visual das roupas, as atitudes e , é claro, a música, que era diferente, inteligente, de bom gosto e bem resolvida. Por tudo isso a banda correspondeu muito bem às aspirações requeridas pela televisão que, já na época, tinha força junto ao público. Isso tudo com a inestimável colaboração do grande maestro Rogério Duprat, que está para os Mutantes trio mais ou menos como George Martin está para os Beatles.

Por sua vez, o novo Mutantes rompeu com tudo isso e direcionou suas baterias para os arranjos e para a performance dos músicos. As músicas ficaram mais longas, com a valorização da parte instrumental, dos improvisos, com letras bem resolvidas, místicas, voltadas para o homem e sua relação com Deus, a sociedade e o mundo ao redor. Letras politizadas na medida certa, mas sem militância, que era o que o pessoal de Milão, sem conhecer nosso trabalho, nos cobrava (mais pra frente eu explico).

Éramos jovens (eu entrei na banda com 22 anos) com uma energia bruta acumulada que era liberada nos shows e levava o público de carona, numa viagem musical com satisfação sempre garantida.

Esse novo Mutantes era então isso: uma banda essencialmente de palco mas que gravou discos que ainda são curtidos e cultuados não só pelas gerações contemporâneas, como também pelos jovens de hoje. Uma banda forte, destemida, que improvisava sem medo e que fazia questão de deixar o público feliz e satisfeito. E sempre conseguia.

Fomos bem sucedidos? Não resta a menor dúvida quanto a isso.

Em 2012 e 2013 fizemos dois shows com essa mesma formação (eu, Sérgio, Túlio e Pedro) e tivemos de volta a mesma reação do público. No festival Psicodália, em Santa Catarina, ficamos cinco minutos parados no palco sem poder tocar, curtindo o público que nos ovacionou com um entusiamo pra lá de contagiante, muito acima do que esperávamos. Em Belo Horizonte, um ano depois, a mesma coisa, dessa vez com o público gritando o nome da banda por muito tempo. Emocionante. Duas recepções dignas de uma banda que ainda tem muita força junto ao público.


Tudo foi feito pelo sol

Do álbum TFFPS só falta dizer que foi todo gravado em estúdio mas soa como se fosse ao vivo. No estúdio fizemos a montagem dos instrumentos em formato de meia lua, com a bateria no centro e gravamos o disco inteiro praticamente sem play back, uma música após outra, como no show. E olha que não estávamos nem tão ensaiado assim para peitar uma parada dessa, mas o espírito destemido da banda garantia o sucesso dos nossos vôos. Era assim que funcionava.

Ainda com essa formação gravamos um compacto duplo com três músicas de temáticas diferentes. Uma delas – Cavaleiros Negros – alertava para as pessoas de mentes fortes, dominadoras, que tentavam capturar a alma dos desprevenidos. Preocupação típica da época. A outra – Tudo Bem – era um desabafo reafirmando nosso estilo diante das pressões que sofríamos no sentido de assumir posturas políticas contrárias ao que pensávamos. A terceira – Balado do Amigo – era um convite do Túlio em favor da amizade e da irmandade entre as pessoas.


A tirania do equipamento

A única coisa que realmente temíamos era a acústica dos ginásios onde íamos tocar, porque o sucesso do show dependia muito deste fator. Essa era a expectativa. Possuíamos o equipamento inteiro, desde os instrumentos até a monitoração e, pasmem, o PA. Isso mesmo, viajávamos com nosso próprio PA, tudo para garantir o melhor som possível, dentro dos nossos padrões que era o mais elevado no país. O resultado é que sobrava pouco dinheiro em nossos bolsos porque a maior parte ia para a renovação e manutenção do equipamento, que ainda por cima era todo importado. Mas, se na ponta do lápis a coisa não ia tão bem, saíamos plenamente recompensados dos shows.


O disco ao vivo

Com a saída do Túlio e do Pedro, conseguimos reunir dois ótimos músicos: Luciano Alves para os teclados e Paul de Castro para o baixo.

Subimos mais uma vez para Itaipava com as energias renovadas, a fim de montar o novo repertório. Em seguida combinamos com a Som Livre a gravação de um disco ao vivo e o local escolhido foi o MAM do Rio, num salão cheio de janelas de vidro, um verdadeiro desafio acústico vencido a duras penas. Na época não havia unidade móvel de gravação. A solução encontrada foi um gravador de rolo Revox de dois canais. O resultado sonoro foi bom e até hoje ainda soa decentemente.

A nota triste foi que o projeto inicial seria um disco duplo por causa da quantidade de músicas, mas a Som Livre recuou e a solução encontrada foi cortar as músicas. Custei a digerir o disco depois de pronto, mas, para compensar, as músicas foram tocadas com muita garra, parecia que queríamos comer os instrumentos, e essa energia passou para o disco.


O solo sonoplastizado

Vale a pena contar esse episódio. Foi o seguinte: nessa ocasião tive a idéia de fazer uma fita gravada com efeitos sonoros para usar como base para o meu solo de bateria. Pedi ao Luciano para me ajudar com os sons do Mini Moog que eram o maior barato. Juntei alguns discos de efeitos sonoros e, com a ajuda de um gravador de rolo Akay de dois canais começamos a gravar. O lance era encadear uma sequência de sons que dessem a idéia da criação do mundo, em seguida, o surgimento do homem, o desenvolvimento tecnológico e, por fim, a grande hecatombe do Apocalypse. E eu faria o solo em cima disso tudo no meu kit Ludwig Octaplus composto de dois bumbos de 24”, oito tons, dois surdos e mais o acréscimo de dois timbales, um tímpano de pedal com 25” e dois tambores de ferro de 200 litros e 24” que eu e meu pai construimos na oficina mecânica dele, em Niterói. Eram 17 tambores e vários pratos; uma pequena usina de ritmo. O som dos tambores de ferro eram o mais grave que eu já ouvi em toda minha vida.

Este solo foi gravado no último show dos Mutantes (Ribeirão Preto – 1978) e ficou tão bom que resolvi incluí-lo no meu CD Ilusão Motriz. Quem quiser ouvir está disponível também no link Solos do meu site. Vale a pena conferir. Eu pelo menos nunca ouvi nada parecido até hoje. É bem original.


Viagem para Milão

Essa formação da banda, embora funcionasse musicalmente muito bem, sofreu um desgaste grande em pouco tempo, gerado por pressões internas e externas. Pra esfriar a cabeça e reciclar a banda fomos passar uma temporada em Milão no começo de 1978.

Lá, entramos em contato com os brasileiros que eram exilados políticos da ditadura militar. Pessoas que carregavam uma grande tristeza no coração que acabou nos contaminando porque também já tínhamos chegado lá com o espírito da banda meio enfraquecido. Éramos sempre muito criticados porque queriam que a banda tomasse uma atitude política segundo a necessidade deles, como se a música que fazíamos, carregada de energia transformadora e letras que procuravam fazer com que as pessoas pensassem com a cabeça livre em assuntos humanitários e de interesse direcionado ao bem estar de todos, já não fosse suficientemente politizada.

Não tínhamos partido político e muito menos éramos militantes de coisa alguma, a não ser da nossa própria música. Chegamos lá num momento em que aquelas pessoas precisavam urgente de uma voz que amplificasse a revolta que sentiam. Infelizmente não éramos nós.


Uma história engraçada

Certo dia em Milão fomos convidados por um experiente produtor, signore Carrarezzi, um italiano de pele ruborizada e grandes olhos azuis esbugalhados, a gravar um disco nos estúdios da GRS. Ficamos uma semana trancados no estúdio sem nenhuma definição, até que um dia ele nos sugeriu que voltássemos ao Brasil para pegar duas cantoras negras com as pernas bem longas que ele nos faria milionários. Ele foi um dos caras que lançaram a disco music na Itália que depois se espalhou pelo mundo. Só que escolheu os protagonistas errados. Já pensou ficar rico fazendo música com o bumbo em semínimas o tempo todo? Não dava pra nós, que agradecemos e metemos o pé. Só não entendemos porque demorou uma semana pra nos fazer a tal proposta.


A volta ao Brasil

De volta ao Brasil fizemos ainda uma tentativa de reerguer a banda com um show no Centro de Convenções em São Paulo, totalmente lotado e cercado de grande expectativa pela volta do grupo depois de oito meses de ausência dos palcos brasileiros.

O Fernando Gama tinha assumido o baixo no lugar do Paul e entrou também a Betina Grazziani para ajudar na sustentação dos vocais. Fizemos um repertório bem interessante mas não ensaiamos como deveria. Foi tudo meio corrido, não me lembro porque. Faltou tempo pra maturar a nova música e ensaiar condizentemente com a complexidade dos arranjos.


Um pouco de cada um

Aqui eu quero falar um pouco dos integrantes da banda e suas contribuições.

Mutantes era uma banda basicamente de rock mas que buscava sempre ampliar seu quintal musical. Isso era lei. Éramos progressivos, segundo a imprensa, mas buscávamos inspiração ouvindo de tudo um pouco: fusion, jazz tradicional, música clássica, samba e rock de tudo quanto era estilo e vertente. Isso já explica em parte o espírito do grupo.

O Túlio trouxe um pouco da majestosidade das montanhas de Minas, traduzida num misticismo que ampliou sonoramente a música e trouxe uma plasticidade incrível aos arranjos. Tecladista de grande técnica e muita capacidade de improvisação. Genial. O grupo incorporou rapidamente esse espírito e, adicionando a famosa vontade de improvisar, fazia músicas de 20 minutos ou mais.

O Antônio Pedro com seu genuíno sangue roqueiro, mas com um lado fusion muito acentuado, era o cara que trazia a banda de volta à terra, quando extrapolávamos nos improvisos. Empunhava seu Precision de quatro cordas com mão de ferro e dedos que pareciam uma aranha incansável. Quando não estava tocando, ouvia alguma coisa nova e trazia para a banda ouvir. É o baixista que toda banda gostaria de ter.

O Sérgio, sem comentários, guitarrista fora de série, virtuose, com inspiração à flor da pele, derramando sua criatividade em tudo que fazia. Já naquela época pilotava a guitarra de um jeito totalmente seu, e era o grande mestre do carisma que agregava a banda com pulso firme, tanto é que conseguiu levar o grupo adiante, sozinho, quando muitos achavam que ia desistir.

Eu, modéstia à parte, procurava suingar quando devia e soltar os braços quando sentia que dava. Como tinha muita técnica, procurava sempre mostrar isso, principalmente nos solos de bateria. Quando tocava sentia que era transportado para outro estágio e, no final dos shows, demorava um pouco até “aterrissar” de volta à terra.

O Luciano chegou trazendo muita técnica e um espírito musical que renovou o som da banda de imediato. Sempre empreendedor, nunca o vi tentar fugir de nenhum desafio, fosse musical ou de qualquer outra natureza. Grande tecladista e músico completo.

O Paul de Castro era guitarrista, mas tornou-se nosso baixista porque era um grande amigo que navegava dentro do mesmo espírito da banda. Tinha a música no sangue e jogava sempre para o time. Músico que contribuiu muito para o novo som da banda com a formação que gravou o disco ao vivo.

Finalmente o Fernando Gama, baixista, e a Betina Grazziani, vocais, entraram num momento em que a banda já estava quase acabando. Mesmo assim deram conta do recado, ajudando muito a fazer um novo repertório, diferente de todos os outros anteriores. Inexplicavelmente, como já disse, não tivemos tempo de curtir essa fase pra poder elaborar a música da maneira condizente. Ambos também são personalidades musicais muito interessantes.


Pra terminar

Finalmente quero dizer que me sinto melhor por jogar um pouco de luz em cima da história verdadeira dos Mutantes no período entre 73 e 78, contribuindo para a formação de um perfil mais claro e honesto para aqueles que não tiveram a oportunidade de conhecer pessoalmente a banda, e que ficam à mercê de informações tendenciosas e nada realistas que às vezes brotam por aí.


Show Mutantes no Sesc em SP - 14 e 15 de julho de 2016


Mutantes em BH - Sesc Palladium 2013


Mutantes no Psicodália 2012

Destaque
Gravação do disco ao vivo no MAM, Rio de Janeiro.
Destaque
Rui gravando com a banda em Milão, no estúdio GRS.
Destaque
Gravação do compacto Cavaleiros Negros no estúdio Eldorado em São Paulo. Túlio, Sérgio, Rui e Pedro.
Destaque
Ensaio no estúdio da banda em Itaipava, região serrana do Rio.
Rui Motta
Mutantes - 1974: Da esquerda para a direita: Rui Motta, Antonio Pedro, Túlio Mourão e Sérgio Dias.
Rui Motta
Luciano, Rui, Sérgio e Paul de Castro em momento de descontração nos Alpes italianos.
Rui Motta
A última formação da banda: Sérgio Dias, Luciano Alves, Fernando Gama e Rui Motta.

Jesus Cristo é o Senhor